No dia 20 de julho de 2013, dia mundial do amigo, nosso estimado Outeiral partiu aos 65 anos de idade.
É muito difícil acreditar que ele se foi, por sua eterna vivacidade, alegria e gosto de viver.
Em 2010, quando ele partilhou comigo o diagnóstico do câncer de pulmão, fiquei estarrecida, pensava por que com ele? Disse que ia naquele momento para Porto Alegre para vê-lo mas ele não aceitou, me pediu que não dissesse para ninguém , pois não queria que tivessem pena dele.
Desde então mostrou-se um guerreiro, lidou com a doença de frente, não se curvou, só deixou de atender seus pacientes na reta final da doença. Ao ter uma pequena melhora, já quis voltar para o consultório. Seu corpo não mais podia mas sua mente desejava.
Lembro como conheci Outeiral em 1995: após ouvi-lo num congresso na Universidade de São Paulo, decidi que queria estudar com ele, ouvir mais, aprender com ele sobre Winnicott e Psicanálise . Ao final da palestra , timidamente , com receio de incomodá-lo , me apresentei e ele falou: nossa guria, você é a Sueli Hisada que fez uma tese sobre Histórias em Winnicott, li teu trabalho e gostei , achei muito criativo.
Fiquei surpresa porque ele já existia para mim, mas naquele momento é como se eu também já existisse para ele. Perguntei se eu podia estudar com ele em Porto Alegre e me surpreendeu novamente dizendo que preferia vir a São Paulo. Se eu conseguisse montar um grupo, ele viria uma vez ao mês. Consegui rapidamente montar um grupo de 20 psicanalistas de diferentes núcleos como USP, Sedes, PUC de outras instituições. Isso era o que novo grupo tinha de mais rico, poder estudar juntos vindos de formações tão diferentes , vocês sabem o quanto isso não é comum. E assim começaram os Seminários Paulistas com Outeiral . Foi o início de tudo. Isso em 1995, ou seja, há 18 anos.
Depois nasceram os outros grupos: Campinas, Rio de Janeiro, Curitiba, Londrina, Fortaleza e em outras capitais do Brasil.
Acredito que todos esses grupos foram fermento para a produção de ideias, de tantos livros, de Encontros Winnicottianos pelo Brasil e pela América Latina.
Outeiral era um escritor claro, com uma capacidade de expressar suas ideias dando a impressão de que a compreensão era fácil. Quintana dizia: “Escrever fácil é difícil”.
Nas palestras ele não levava nada escrito, seu estilo era natural, criativo, pronto para apresentar, ouvir e discutir suas ideias de forma viva. Tinha pensamento e apresentação rápidos, com extrema abrangência dos assuntos. Eu tinha a sensação de que ele sabia falar sobre tudo.
Era um leitor voraz. Quando defendi meu doutorado sobre Setting em Winnicott , fui até Porto Alegre para utilizar sua biblioteca particular que possuía 5000 livros catalogados por uma bibliotecária, material que não encontrei nem na USP , acervo raríssimo. Era muito raro sugerir a ele, algo que não tivesse lido. A primeira vez em que isso aconteceu foi quando comentei ter lido um livro chamado “Beijos e cócegas e tédio” do psicanalista Adam Philips; ele riu, fez uma gozação do nome dizendo: “ não acredito que você quer que eu leia um livro com esse nome”, mas, uma semana depois, ele já tinha comprado e lido e, a partir daí, começou a devorar todos os livros de Philips.
Era um homem que tinha paixão e admiração pelos filhos: Marcelo, jornalista premiado, Pedro, Felipe, Clarisse e Júlia. Sua casa sempre estava cheia de adolescentes que passavam as férias na praia surfando. Foi casado muitos anos com Magda , também psicanalista. Há quatro anos Ana Leão foi escolhida como sua companheira e viveram intensamente esta união. Com ela, Zé se permitiu brincar na Disney, e em Paris. Ela foi a pessoa com quem ele escolheu viver antes de partir.
Outeiral era um homem de muitos amigos. Conviveu principalmente com Theobaldo Thomaz, amigo por 40 anos e segundo ele, partilharam e se divertiram muito na vida. Outeiral sabia SER amigo ( exatamente no que Winnicott diz do elemento feminino puro).
Comigo ele sabia o que eu ia falar antes de eu verbalizar, o que aconteceu em momentos muito difíceis. Também nos comunicávamos em silêncio. Nossos contatos eram muito por email mas quando ele precisava dar uma sumida eu respeitava, sabia que ele não estava bem,que não queria falar e depois de um tempo ele voltava a me procurar.
A sua capacidade de agregar as pessoas era impressionante. Na organização dos eventos, conviver com tantas mulheres com TPM, com histerias, ele sabia perfeitamente reger todas essas vaidades e tirar de todos o seu melhor, como um grande maestro. Acredito até que muitos eventos só foram possíveis graças à sua presença firme .
Quando decidiu criar seu site com ajuda de sua filha Clarisse, quis colocar as fotos do polo, outra paixão da sua vida, pois dizia que o site era a mostra de quem ele era. E que era importante colocar não só artigos de Psicanálise mas tudo o que compunha seu mundo . Ele era assim, buscando o tempo inteiro expressar seu self verdadeiro.
Outra característica era a originalidade das suas ideias. Não tenho dúvida de que não era um winnicottiano , com a maturidade podia ser outeiralniano, ou seja, ele mesmo. Fico pensando o que teria acontecido se Outeiral não tivesse descoberto a obra de Winnicott. Porque ele conseguiu, com sua originalidade, dar pinceladas na forma nova de entender a teoria e nos ajudar no nosso encontro com Winnicott.
Ele defendia muitas posições de forma clara, principalmente contra a tentativa na Psicanálise de criar uma escola chamada Winnicott. Não acreditava nessa formatação e aprisionamento uma vez que o próprio Winnicott não desejava isso.
Estamos perdendo o mais importante pensador da atualidade. O falecimento tem importância primordial no mundo psicanalítico. Outeiral contribuiu para o estudo da Adolescência em nosso meio. Seus temas de estudo prediletos eram: Elemento feminino, o olhar,a personalização, a criatividade e, principalmente ,adorava Rabiscos. Publicou dezenas de livros sobre Psicanálise. Sobre os livros ele dizia: “O livro, a partir de agora, é seu, não é mais meu: faça dele o uso que quiser ou puder”.
Outra característica foi a generosidade. Ele foi meu padrinho literário. Fez o prefácio de 3 livros meus que foram publicados graças a ele. E fizemos mais dois em conjunto: Seminários Paulistas e Seminários Brasileiros.
Ele me convidou para fazermos o último livro juntos chamado “RABISCOS NOS QUADRINHOS”, que tínhamos ideia de publicar desde que nos conhecemos . Infelizmente não deu tempo. Em setembro de 2012 ele me mandou uma mensagem que dizia:
“Sueli
Vai ficar muito interessante!
Vamos tocar logo.
O tempo se tornou algo importante para mim
Diferente do que era antes…
Beijo minha querida amiga”.
Outeiral
Acredito que o desejo dele é que possamos continuar os Rabiscos que ele iniciou com cada um de nós. Através deles vamos manter nosso Outeiral vivo.
O Dr. Sebastião Abrão Salim – médico psiquiatra, psicanalista, professor da Faculdade de Medicina da UFMG – foi o grande idealizador da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais – SBPMG. Ele introduziu a psicanálise no Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFMG, ministrou cursos de psicoterapia psicanalítica, com grupos de discussão de casos, supervisões individuais e coletivas.
Em 1988, convidou o Dr. Sérgio Kehdy, que havia terminado a sua formação psicanalítica na SPRJ, para se mudar para Belo Horizonte. O Dr. Sérgio chegou na condição de Membro Associado, e os dois começaram a trabalhar no sentido de criar um Núcleo Psicanalítico ligado à Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. Durante cinco anos, tempo necessário para que conseguissem as promoções necessárias para se titularem como Analistas Didatas, organizaram cursos, promoveram eventos, além de manterem contatos frequentes com a SPRJ, com o objetivo de sensibilizarem seus membros sobre a importância de colocar Belo Horizonte no circuito da Psicanálise como a entendiam.
Em julho de 2008, o antigo Núcleo Psicanalítico de Belo Horizonte – NPBH, fundado em 1993 e filiado à Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro – SPRJ, passou à condição de Study Group, tornando-se o Grupo de Estudos Psicanalíticos de Minas Gerais – GEPMG, filiado diretamente à IPA. Após 7 anos de muito desenvolvimento institucional, em 2015, com o apoio do Sponsoring Committee (Comitê da IPA), conquistaram o título de Provisional Society e passaram a se chamar Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais – SBPMG, no 49º Congresso da IPA, realizado em Boston (EUA), com a presença de nosso então presidente, Dr. Sérgio Kehdy